by Michael W.

Seguíamos velozmente, naquele final de tarde invernal, o carro de Francisco Montenegro, que por vezes desaparecia pelo meio de reflexos ígneos de um sol mortiço para depois emergir no final de uma qualquer curva. Uma vez chegados às portas da quinta do Aneto, um cheiro a terra, levemente perfumado e adocicado, chegava de parte incerta, trazido pelo vento frio que entretanto despertara.

Chamou-nos a atenção uma velha casa imponente, de vista sobre o Rio Douro e o Marão, uma casa que, como tantas outras do género, seria espaço de histórias íntimas por contar. O nosso anfitrião em breve nos levaria a visitá-la, mas não sem primeiro passar pela adega. Mal podíamos adivinhar os aromas que nos acometeriam assim que atravessássemos as portas de vidro que davam acesso à adega.

Um bálsamo amadeirado, macio e doce, de tons outonais, aflorou os nossos sentidos. Percorremos os corredores por entre lagares de inox, pipas de madeira, mangueiras de plástico e uma panóplia de máquinas e utensílios, enquanto Francisco esclarecia alguns aspectos técnicos relativos a um vinho ou outro. Existia naquele lugar uma harmonia perfeita entre a tecnologia e a natureza. Após uma breve conversa, na modernidade das instalações da adega, passaríamos agora para a antiga casa senhorial.

Traçávamos, sem o sabermos, um percurso temporal, embora no sentido contrário. Dirigimo-nos para a casa, atravessando um corredor de árvores centenárias, como que nos convidando ao passado. Estacámos perante a fachada enquanto Francisco destrancava a porta. Ao entrarmos, a expectativa de um silêncio austero e abafado rapidamente foi substituída pela surpresa de um imenso rumor de vida. Os móveis amontoavam-se nas diversas divisões da casa, pesados louceiros de pinho numa, um piano desafinado na seguinte; uma árvore do natal passado noutra, um forno a lenha na próxima. Quadros, candelabros, ruídos e vestígios de histórias familiares preenchiam todos os recantos. Facilmente imaginámos uma mesa larga, repleta de manjares e sabores, regados com vinho branco, antecipados por um porto doce, conversas cruzadas, risos e gargalhadas, um brinde. E foi com esta imagem que nos despedimos de Francisco Montenegro, com a promessa que em breve se tornaria realidade.

Aqui fica o Podcast com a entrevista com Francisco Montenegro:

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