by Michael W.

Entraram, e apesar da grande mancha iluminada no centro da sala, não resistiram olhar primeiro para cima. Não havia candeeiro de tecto, e isto, para olhos pouco habituados à parca natureza da minha casa, sujeita-me ao escrutínio íntimo de cada um dos convidados. Tinha-me esquecido completamente do tecto… Nos dias anteriores, a decoração da mesa tinha sido a única preocupação, não deixando margem para outros detalhes. A mesa rectangular, pesada e escura, era o instrumento mediante o qual se iriam dar as primeiras notas para a dança que se avizinhava. Comecei a rir. “Quem diria? O tecto!”. O grupo pareceu descontrair com o riso, cujo motivo muito provavelmente não imaginavam. Sentaram-se, dispostos em dois lugares frente a frente, comigo à cabeceira. Da cozinha chegavam ruídos da azáfama que se vivia pela casa. Havia uma criança a chorar, o que me surpreendeu, sobretudo por não haver crianças em casa. Entretanto, alguém tocava à campainha, o que me obrigou a desculpar-me para me retirar por uns instantes. Quando abri, surgiu-me um homem aos berros, irritado por não conseguir passar com o carro e que “o seu está mal estacionado!”. Quase me entrava pela casa adentro, pelo que tive de o empurrar pela porta, mas o diabo do homem, com a graciosidade de um hipopótamo, tropeçou no degrau e foi aos tombos até lá abaixo. Olhei para o fundo das escadas, confirmei que estava vivo, e fechei a porta. Quando cheguei à sala de jantar, reinava um silêncio mortal. Os comensais entreolhavam-se, meio atrapalhados, interrogando-se sobre o sucedido. Adiantei-me e disse que era “apenas um velho amigo. Um brincalhão! Ahah! Está tudo muito bem! Vamos começar? Let’s get started?”.

Comecei por apresentar-me, mas engasguei-me e tossi até ficar sem ar. Valeu-me a ajuda de um dos convidados, o homem do primeiro casal. Noruegueses, se não estou em erro. Deu-me, com a sua mão enorme, duas pancadas nas costas, mas a segunda foi com demasiada força, e comecei a sangrar do nariz. Mas não fazia mal, havia guardanapos de sobra. “Are you ok?” perguntou a mulher do norueguês gigante, e eu disse “yes! I’m alright!”. A mulher volta-se para o companheiro e diz algo em norueguês que não me foi possível compreender, mas pelo tom dela e pelo olhar dele, o de uma criança gigante que estava a ser repreendida, foi possível perceber que lhe estava a dar um sermão. Ele olhou para ela com um olhar severo, e hesitante olhou para mim e disse, secamente, “Sorry!”. Ela assentiu com a cabeça e disse mais alguma coisa naquela língua incompreensível para mim, e ele voltou a sentar-se, amuado. O outro casal, uns ingleses já na casa dos sessenta anos, aproveitando o episódio, discutiam baixinho um com o outro, até que ele levantou a voz apenas para dizer “You DO remember it was YOUR idea to come all the way here, don’t you Margret?”. A mulher, “Shht! Keep your voice down, Mr. Morris. We wouldn’t want to have you sleeping in the car, wouldn’t we now?”, cortou rispidamente, num silvo ameaçador. Acabava de dizer isto, entra uma criança vestida de cuecas, com a cara toda suja e as unhas pretas, numa corrida desenfreada, aos berros, sempre a chorar. Logo depois entra a cozinheira, de cabelos completamente desgrenhados, também a correr, aos gritos. “Anda cá, Fábio! Fábio! Olha que… olha que levas uns açoites nas fuças, ouvistes?”. Ele escapou-se algures lá para dentro. Perante as minhas interrogações, a cozinheira que eu tinha pedido para vir ajudar, tinha, aparentemente, trazido o filho porque “não podia deixá-lo ficar sozinho em casa, pois não? Era o que mais faltava! Deixe-se lá de lamúrias, que já comecei a preparar as coisas. São estes os russos ou lá o que é?”, e foi-se embora, provavelmente para começar a fazer o jantar. Entretanto, o meu guardanapo estava cheio de sangue, e começava a pingar para o braço. “You are still bleeding too much”, disse a norueguesa, “I’m a nurse! Let me help you”. Desculpei-me e retirei-me mais uma vez, e fui com ela lá para dentro, para voltar com uma bola algodão na narina sensível e um olhar fulminante do gigante.

“Fábio, leva lá isto para a mesa! Leva! Vá!”. Gritos. Surge o dito Fábio com uma garrafa sem rótulo, uma zurrapa qualquer que aquela mulher infernal tinha trazido, “do meu marido, que ele faz do melhor vinho! Não tem pózes, este! É do melhor, ouviu?”. Sim, certamente que seria. Mr. Morris quis experimentar, e a norueguesa também. Margret olhava com desdém para o seu par, e o gigante olhava fixamente para mim. Num fôlego inspirado, pensei em começar a explicar as virtudes de um bom vinho e de como este não era, de todo, um bom vinho, mas sim uma ameaça a tudo quanto este maravilhoso néctar das sensações representa. Porém, tocam à campainha, e tive de me retirar mais uma vez. Quando abri a porta, era o homem hipopótamo, com um lenço na cabeça, acompanhado de dois agentes da polícia. “Foi este que me tentou matar! Foi este!”. Da cozinha, ouve-se loiça a partir-se, e passa o pequeno Fábio, de cuecas, a chorar, por detrás de mim. “Não é meu filho”, para logo de seguida me arrepender destas palavras. Fechei a porta novamente, e dei duas voltas ao trinco. Quando me virei, lá estava o punho do norueguês na minha cara. “Enfim…”, suspirei, momentos depois. Quando cheguei à sala, o pequeno fedelho estava na minha cadeira, Margret estava a tentar tirar a garrafa de morangueiro da mão de um Mr. Morris ébrio, e os noruegueses discutiam naquele misterioso dialecto ora olhando para mim, ora olhando um para o outro, enquanto a cozinheira gritava qualquer coisa sobre “fogo!” na cozinha.

Deixei o diabrete na minha cadeira e sentei-me na ponta oposta da mesa. Lembrei-me que tinha comprado uma garrafa de vinho especialmente para aquele jantar. Fui buscá-la e abri com um sonoro “pop!”. Deixei-o respirar, como manda a etiqueta, e fi-lo mover-se no largo copo de vinho, em gestos circulares, aguardando pelos aromas amadeirados e adocicados que vinham descritos no rótulo. Entretanto, Mr. Morris tentava subir para cima da mesa, “Let me live, woman!”, e a mulher tentava impedi-lo, com a ajuda dos noruegueses. De bolinhas de algodão no nariz, fiz um brinde silencioso àquela cena e emborquei o copo de um só trago. Ouvi um estrondo vindo do corredor, e surgem os dois polícias com o meu velho amigo, “aqui está o safado!”. O velho inglês deitado na mesa, a velha impávida, Fábio a beber o vinho do pai, os noruegueses a discutirem e um intenso cheiro a fumo que começava a marcar presença, pontuado por uns gritos estridentes vindos da cozinha. “Vão ter de me desculpar a falta de um candeeiro decente, meus senhores”, tive o cuidado desta vez de dizer.

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