“Diz-me o que comes…”

Camilo & Forster

lustração: Inga F.

by Michael W.

Em O Vinho do Porto: Processo d’uma Bestialidade Ingleza *, Sinval explicava a Camillo que “há uma só distinção que extrema o homem de todos os outros animais (…) A mentira. O homem é o único animal que mente”.

Na pena de Camillo, o famoso Barão de Forrester, num infame panfleto sobre a produção do vinho do Porto, e que provocou um “abalo intestinal no mercado de Londres”, acusa os lavradores:

“(…) de não differençarem, no fabrico, as temperaturas humida, fria, secca e quente; que empregavam promiscuamente toda a casta de uva, adulterando-a com ingredientes adequados ao paladar inglez, mas corrosivos (…) De modo que o vinho entrava no estomago inconsciente do Reino-Unido á razão de vinte e seis gallões de agua-ardente por pipa (…) Quem assim deteriora o vinho é, a meu vêr, mais criminoso que um ladrão vulgar.”

Camillo escreve:

“Parecia natural e patriota coisa que os negociantes e agricultores de vinho accusassem este detrahidor á animadversão publica, e que a imprensa do baluarte da liberdade o cobrisse de injurias, e algum viticultor mal humorado de bengaladas. Não, meu querido Thomaz Ribeiro. A sua casa luxuosa na Ramada-Alta era o confluente dos próceres portuenses e da provincia vinicola.”

Se a história está bem contada, ou não, pouco importa. O temperamento romântico e a natureza frágil de Camillo exortam-no a tais julgamentos. Se justos, ou não, a cada qual cabe julgá-lo. O que importa, contudo, é a forma como a próxima história se complementa com a anterior, culminando num retrato intemporal que caracteriza o complexo vago em que se constitui a natureza errática das relações:

“Agora te vou contar como ella me salvou aos vinte e tres annos.”

O testemunho, escrito no sopro de um sentimento de indignação da primeira parte, revela não só a debilidade física de Camillo, mas também a confissão de uma debilidade moral. Da condição em que se encontrava, explica:

“Em 1849, a invasão subita de uma anemia vampirisou-me o pouco sangue desoxigenado, desfibrinado, e me poz os ossos em decomposição gelatinosa, a ponto de me deixar em uma ressicação óssea. (…) Assistira, um dia, Gertrudes ao meu jantar e viu que eu me confrangia enjoado pelo espectaculo repulsivo de meia franga recozida e um caldo branco em que boiavam uns olhos amarellos da enxundia do oveiro da ave. Ella cheirou de longe o caldo fumegante, e disse com engulho:

— Captiva! isto nem com fome de cão se podia tragar!”

Gertrudes, a quem Camillo chamava de Brillat-Savarin, salva-o da morte através da companhia e de uma dieta “restaurante”. Os parágrafos seguintes são de natureza epicurista, descrição do processo de convalescença e das conversas com Sinval, o médico que o visitava. Acerca da morte da cozinheira, Camillo refere “uma perda insubstituível (…) um tesouro de joias culinarias que a voragem enguliu (…) Tinha sido chamada por D. Antonia Ferreira para dirigir os jantares dados ao barão de Forrester, no Vesuvio”. Comprometeu-se, declara, consigo próprio a redigir uma necrologia da mulher que o salvou. Porém, escreve:

“Pois, Thomaz Ribeiro, não pude redigir a necrologia de Gertrudes! (…) Queres saber por que não escrevi a necrologia da humilde mulher que me salvou?—foi por que ella me salvou como cozinheira.”

Não deixo de sentir uma certa ironia subjacente ao livro. Mas é dessa ironia de que é feito o quotidiano. Comecei por citar Sinval. Falta dizer, contudo, que mesmo o mentiroso recusa-se a mentir a si próprio quando a mentira de uma ilusão é tão verdadeira quanto a crença que a sustenta. As possibilidades e vivências que advêm das decisões tomadas diariamente assentam, não raras vezes, sobre contradições e conflitos, intrínsecas e/ou com o próximo, e é nessas tensões e resoluções que se sente o sabor amargo ou doce da vida. Brillat-Savarin dizia: “Diz-me o que comes e dir-te-ei o que és”. Daqui, posso apenas especular sobre a profundidade e o escopo que esta ideia pode assumir.

* Optou-se, como capricho, pela ortografia do tempo em que Camillo ainda respirava. Para ler a versão centenária, viaje no tempo.

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