…para ouvir: Breathe – Pink Floyd

by Michael W.

Thomas Mann escrevia em A Montanha Mágica sobre a relatividade do tempo: “O vazio e a monotonia alargam por vezes o instante ou a hora e tornam-nos “aborrecidos”; porém, as grandes quantidades de tempo são por elas abreviadas e aceleradas, a ponto de se tornarem um quase nada”. A aceleração que a passagem do tempo adquire através da monotonia torna-se vertiginosa e, em retrospectiva, assustadora, um salto de olhos vendados para um abismo que se rasgou por baixo dos nossos pés. E quanto mais embrenhados estivermos nas insignificâncias do quotidiano, irrelevantes para o amor, mais este se perde em fantasias e medos de um futuro tão incerto quanto frugal o presente, vivido em cada pulsação como uma reiteração imperceptível aos sentidos.

Contudo, regozijemo-nos, abençoando a honestidade de tudo quanto é vil nesta condição que é a nossa célere existência. Dancemos juntos, abraçando o inevitável da passagem do tempo. Seremos apelidados de loucos, mas que importa, que importa? Mas dancemos contidamente. Não queremos que nos chamem, ao invés de loucos, tolos, pois não? Porque guardamos, na verdade, uma falsa esperança, não daquela falsidade que reconhecemos nos discursos delirantes dos hipócritas, mas antes daquela que vem da candura do ingénuo — somos assim inocentes quando se trata do nosso próprio íntimo.

Queremos que o tempo abrande. Por isso, abrimos as mãos, num gesto vital, para colher os frutos vis da caprichosa árvore da condição humana. Elizabeth Robins Pennell dissertava sobre a gula, em 1900:

“Gluttony is ranked with the deadly sins; it should be honoured among the cardinal virtues (…)Poor deluded humans, ever so keen to make the least of the short span of life allotted to them!(…) The ancient  philosopher thought that time had come when life afforded more evil than good. The good of a pleasantly planned dinner outbalances the evil of daily trials and tribulation (…) Gross are they who see in eating and drinking nought but grossness. (…) Gluttony is a vice only when it leads to stupid, inartistic excess.” 1

É-nos concedida uma dança. Porém, Manoel de Oliveira adverte-nos sobre as condições dessa dança, em Espelho Mágico: “Não é preciso ser-se rico para comer; é preciso ser-se rico para saborear”. A mensagem é clara e verdadeira. Há nestas palavras um compromisso entre riqueza e liberdade, dificilmente contestável. Mas, tal como a ideia de “Homem”, é uma construção caprichosa: a liberdade concedida é da maior subtileza, apenas concedida na condição de nos libertarmos — a liberdade liberta. Zygmunt Bauman asserta, cem anos depois de Elizabeth Pennell:

“A lista dos vinte livros mais bem vendidos, bem como todas as modas manifestamente de pouca dura, mudam à maneira das figuras do caleidoscópio de uma semana para outra, mas há, apesar de tudo, dois tipos de obras que têm lugar garantido nos tops: os livros de receitas e os livros de dietética. Não estamos a falar de livros de receitas correntes, mas de colectâneas de receitas cada vez mais requintadas, exóticas, sensacionais, elegantes, delicadas e minuciosas — outras tantas promessas de delícias inéditas para as papilas e de novos cumes de êxtase para os olhos, o olfacto e o palato. Ao lado dos livros de receitas, como sombra inseparável deles, os livros de dietética, preceituários absurdos de exercícios de auto-instrução e auto-imolação, prescrições a seguir no tratamento dos males que os livros do primeiro tipo causaram e na purga do seu legado: a capacidade de viver sensações maravilhosas, tornando imperiosa antes do mais a autoflagelação.”

Dentro das grades do quotidiano, cada um é prisioneiro de si próprio, uma prisão onde somente os tolos dançam alegremente. Ora, mas os tolos julgam-se felizes, sempre. Por outro lado, são os loucos, os que olham em redor, através das grades, que devem ter cautela. Um espírito enfraquecido, doente, inibe o gesto criativo, vital, activo, restando o gesto imitativo, conformado, passivo. Somos ouvidos, mas não sabemos ouvir. Somos amados, mas não sabemos amar. Subjacente ao acto de compor, criar, amar, existe um espírito contestatário — o amor é um grito — que, se encarcerado, atrofia e morre. Soçobra, assim, a humanidade no e através do amor.

Paremos o tempo. Permitamo-nos. Sejamos indulgentes. Comamos o fruto proibido. Criemos. Sejamos… loucos.

1 – tradução livre: “A gula está entre os pecados mortais; deveria estar entre as virtudes cardinais (…) Pobres humanos ingénuos, sempre tão dispostos a aproveitar o menos possível o curto tempo que lhes é concedido! (…) O antigo filósofo julgava que o fim chegava quando a vida proporcionava mais o Mal que o Bem (…) O Bem de um jantar agradável contrabalança o Mal das atribulações diárias. Grosseiros são aqueles que vêem no acto de comer e beber nada a não ser obscenidade (…) A gula torna-se depravação somente quando leva ao excesso estúpido, vulgar”.

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