Histórias no Pote

by Michael W.

Photography Inga Freitas Photography

Numa manhã platinada, de brilhos brancos e opacos, partimos. A memória pregava-nos partidas. O Douro, na sua peculiaridade e diversidade, é todo igual. Uma curva não é diferente de curva seguinte, e um socalco não é diferente do socalco acima. A aldeias em nada se distinguem entre si nas suas dissonâncias coloridas, em contraste com os tons pardacentos que acentuam a monotonia do relevo. Enfim, é apenas natural existir alguma tristeza na honestidade das coisas.
“Um pouco mais à frente”, olhei pela janela e vi o longo dorso do Marão, e essa seria a única referência memorável naquele serpentear melancólico. Por fim, lá reencontrámos a entrada da Quinta do Estremadouro.
O vento soprava leve, mas num prenúncio outonal. A fachada da casa mantinha-se muda, de portas e janelas fechadas. Mais uma vez, a memória brincava. A casa parecia-me mais pequena e mais simples, e as árvores maiores e mais velhas.

Quinta Aneto Jantar

Fomos recebidos pela Sílvia, acompanhada dos filhos, “podem ir descendo que já lá vou ter”, enquanto se dirigia, atarefada, para uma das salas da casa. Descemos as escadas, toscas e estreitas, de corrimão macio, desgastado pelo gesto, em direcção à cozinha, onde encontrámos Francisco Montenegro. “Podem por as coisas aí em cima”, enquanto nos cumprimentávamos. Um cheiro intenso a lenha invadia a cozinha, vindo de um anexo, onde já se preparavam os potes. Seguiram-se os arranjos florais, a disposição da mesa no andar de cima, enquanto outros traziam batatas e cebolas da horta, folhas de videira da vinha, cortavam o pão e preparavam o queijo.

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Dos Tolos e dos Loucos

…para ouvir: Breathe – Pink Floyd

by Michael W.

Thomas Mann escrevia em A Montanha Mágica sobre a relatividade do tempo: “O vazio e a monotonia alargam por vezes o instante ou a hora e tornam-nos “aborrecidos”; porém, as grandes quantidades de tempo são por elas abreviadas e aceleradas, a ponto de se tornarem um quase nada”. A aceleração que a passagem do tempo adquire através da monotonia torna-se vertiginosa e, em retrospectiva, assustadora, um salto de olhos vendados para um abismo que se rasgou por baixo dos nossos pés. Continuar a ler

“Diz-me o que comes…”

Camilo & Forster

lustração: Inga F.

by Michael W.

Em O Vinho do Porto: Processo d’uma Bestialidade Ingleza *, Sinval explicava a Camillo que “há uma só distinção que extrema o homem de todos os outros animais (…) A mentira. O homem é o único animal que mente”.

Na pena de Camillo, o famoso Barão de Forrester, num infame panfleto sobre a produção do vinho do Porto, e que provocou um “abalo intestinal no mercado de Londres”, acusa os lavradores Continuar a ler

O Candeeiro

by Michael W.

Entraram, e apesar da grande mancha iluminada no centro da sala, não resistiram olhar primeiro para cima. Não havia candeeiro de tecto, e isto, para olhos pouco habituados à parca natureza da minha casa, sujeita-me ao escrutínio íntimo de cada um dos convidados. Tinha-me esquecido completamente do tecto… Continuar a ler

Aneto Wines

by Michael W.

Seguíamos velozmente, naquele final de tarde invernal, o carro de Francisco Montenegro, que por vezes desaparecia pelo meio de reflexos ígneos de um sol mortiço para depois emergir no final de uma qualquer curva. Uma vez chegados às portas da quinta do Aneto, um cheiro a terra, levemente perfumado e adocicado, chegava de parte incerta, trazido pelo vento frio que entretanto despertara.

Chamou-nos a atenção uma velha casa imponente, de vista sobre o Rio Douro e o Marão, uma casa que, como tantas outras do género, seria espaço de histórias íntimas por contar. O nosso anfitrião em breve nos levaria a visitá-la, mas não sem primeiro passar pela adega. Mal podíamos adivinhar os aromas que nos acometeriam assim que atravessássemos as portas de vidro que davam acesso à adega. Continuar a ler