Dos Tolos e dos Loucos

…para ouvir: Breathe – Pink Floyd

by Michael W.

Thomas Mann escrevia em A Montanha Mágica sobre a relatividade do tempo: “O vazio e a monotonia alargam por vezes o instante ou a hora e tornam-nos “aborrecidos”; porém, as grandes quantidades de tempo são por elas abreviadas e aceleradas, a ponto de se tornarem um quase nada”. A aceleração que a passagem do tempo adquire através da monotonia torna-se vertiginosa e, em retrospectiva, assustadora, um salto de olhos vendados para um abismo que se rasgou por baixo dos nossos pés. Continuar a ler

“Diz-me o que comes…”

Camilo & Forster

lustração: Inga F.

by Michael W.

Em O Vinho do Porto: Processo d’uma Bestialidade Ingleza *, Sinval explicava a Camillo que “há uma só distinção que extrema o homem de todos os outros animais (…) A mentira. O homem é o único animal que mente”.

Na pena de Camillo, o famoso Barão de Forrester, num infame panfleto sobre a produção do vinho do Porto, e que provocou um “abalo intestinal no mercado de Londres”, acusa os lavradores Continuar a ler

Homens dentro de garrafas

by Manuela F.

Lembro-me de num jantar, num qualquer restaurante aqui no vilarejo, ter visto uma sequência de serigrafias alusivas ao trabalho árduo no Douro numa altura em que pouco ou nada se falava desta região, durante décadas esquecida: Esboços das vinhas, cacos, garrafas que rolavam pelas encostas, garrafas estas que no seu interior ao invés de vinho, continham homens carcomidos, desgastados e embrutecidos, com rostos sulcados de rugas. Tudo isto vi numa altura em que o Douro ainda não era Património Mundial da Humanidade e nas bancas de jornais não existiam revistas sobre vinhos, dessas que hoje são publicadas aos magotes, em que rios de tinta são gastos a falar do brilhantismo deste e daquele produtor, deste e daquele enólogo, de castas, da acidez dos vinhos, dos taninos e de restaurantes onde se associam néctares à Nouvelle Cuisine. Exaltam-se os chefs como se de estrelas de Hollywood se tratassem.

Obra do acaso, poucos anos mais tarde, fui trabalhar para um local onde se produz vinho desde o séc. XVII. Uvas desta e de outras quintas do Douro, são ainda hoje ali vinificadas. Misturam-se saberes ancestrais com novas técnicas de produção. Daí vermos os velhos lagares de granito ao lado de cubas de inox. Foi aqui que tomei contacto com o vinho e fiz a minha ligação às serigrafias que um dia vi num qualquer restaurante.

 por Nuno Castelo

Homens Garrafa III  de Nuno Castelo

O Candeeiro

by Michael W.

Entraram, e apesar da grande mancha iluminada no centro da sala, não resistiram olhar primeiro para cima. Não havia candeeiro de tecto, e isto, para olhos pouco habituados à parca natureza da minha casa, sujeita-me ao escrutínio íntimo de cada um dos convidados. Tinha-me esquecido completamente do tecto… Continuar a ler

Aneto Wines

by Michael W.

Seguíamos velozmente, naquele final de tarde invernal, o carro de Francisco Montenegro, que por vezes desaparecia pelo meio de reflexos ígneos de um sol mortiço para depois emergir no final de uma qualquer curva. Uma vez chegados às portas da quinta do Aneto, um cheiro a terra, levemente perfumado e adocicado, chegava de parte incerta, trazido pelo vento frio que entretanto despertara.

Chamou-nos a atenção uma velha casa imponente, de vista sobre o Rio Douro e o Marão, uma casa que, como tantas outras do género, seria espaço de histórias íntimas por contar. O nosso anfitrião em breve nos levaria a visitá-la, mas não sem primeiro passar pela adega. Mal podíamos adivinhar os aromas que nos acometeriam assim que atravessássemos as portas de vidro que davam acesso à adega. Continuar a ler