Manuela F.

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Lembro-me de num jantar, num qualquer restaurante aqui no vilarejo, ter visto uma sequência de serigrafias alusivas ao trabalho árduo no Douro num altura em que pouco ou nada se falava desta região durante décadas esquecida: Esboços das vinhas, cacos, garrafas que rolavam pelas encostas, garrafas estas que no seu interior ao invés de vinho, continham homens carcomidos, desgastados e embrutecidos, com rostos sulcados de rugas. Tudo isto vi numa altura em que o Douro ainda não era património mundial da humanidade; nas bancas de jornais não existiam revistas sobre vinhos, dessas que hoje são publicadas aos magotes, em que rios de tinta são gastos a falar do brilhantismo deste e daquele produtor, deste e daquele enólogo, de castas, da acidez dos vinhos, dos taninos e de restaurantes onde se associam néctares à Nouvelle cuisine. Exaltam-se os chefs como se de estrelas de Hollywood se tratassem.
Obra do acaso,poucos anos mais tarde fui trabalhar para um local onde se produz vinho desde o séc. XVII. Uvas de esta e de outras quintas do Douro são ainda hoje ali vinificadas. Misturam-se saberes ancestrais com novas técnicas de produção. Daí vermos os velhos lagares de granito ao lado de cubas de inox. Foi aqui que tomei contacto com o vinho e fiz a minha ligação às serigrafias que um dia vi num qualquer restaurante.

Nesta minha descoberta muito pessoal sobre esta região e a sua gente, conheci a história da Ferreirinha, uma senhora que sintetizou o que foi a sua vida nesta máxima que me fez compreender o porquê da sua grande paixão por esta terra e pelo Homem: “Cada um, na sua terra, deverá fazer o que quer que seja para o bem da humanidade”.
Quem me conhece bem, diz que sou radical: gosto ou não gosto. Por vezes é difícil saber não ferir susceptibilidades. Alguém que me é muito querido dizia-me frequentemente “cortas sempre tudo pela raiz” . Eu entendi isto na perfeição quando me dei conta que só gosto de chocolate preto, detesto o de leite. Não gosto de fiambre, para mim tem de ser salpicão ou presunto. Não gosto de fado mas quase choro quando vejo dançar os pauliteiros de Miranda. O rock é o meu velho e eterno amigo e estou sempre a fazer bandas sonoras para o meu quotidiano. Detesto cópias e sei na perfeição identificar tudo o que é genuíno.

 

I clearly remember one occasion while having dinner at a somewhere restaurant here in the village seeing a sequence of serigraphies allusive to the hard workmanship in the Douro, when there was little or nothing to be said about the region: sketches of grapevines, smithereens and bottles that rolled down the slopes, inside of which there were addled, outworn, hardened men with faces furrowed by wrinkles. All this I’ve seen on a time when Douro was yet to become a world heritage site; when magazines about wine where yet to become a standard category on the newspaper stands, those on which ink rivers are being now spent to write about this or that wine producer, oenologists, grape varieties, about the technical aspects of wine, such as the acidity, tannins as well as restaurants where the Nouvelle Cuisine is exquisitely paired with the earth’s finest nectars. Chefs are now viewed as Hollywood movie stars.

By the work of chance, a few years later I started working at a place where wine is produced since the XVII century, where ancient knowledge blends with new production techniques. Hence, the old granite wine presses are side by side with the modern stainless steel fermentation vessels. And this is the place where I came in contact with the wine world for the first time and where the images that I once saw at the somewhere restaurant, re-emerged in my mind.
Throughout my personal discovery about this region and its people, I’ve stumbled upon the story of Ferreirinha, a woman who synthesized her life in one maxim, in such a way that it was clear to me her passion for her homeland and the World: “Each one of us, on our own land, should do whatever we can for the good of mankind”.
Those who know me well say I’m radical: I either like it or I don’t. Sometimes it’s hard not to offend sensibilities. Someone very dear to me used to say “you always nip everything in the bud”. I understood that perfectly when I realized that I only like dark chocolate, cant’ stand the milk version. I don’t like that thin sliced ham, but I really love cured ham. I just can´t stand fado but I’m brought to tears by the dance of the Pauliteiros de Miranda. Rock is my old and eternal friend and I’m always making soundtracks for my day to day life.
I hate copies and I can perfectely distinguish what its genuine from what it’s not.

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