Santa Fartura!

Estamos em época de Santos.

Para o meu irmão é a época da Santa Fartura, Santo Churro, Santo Algodão Doce!

Photography Inga F.

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D. Sebastião: dá cá um balão para eu brincar!

santos-populares

eCollage by Inga F.

by Inga F.

Na noite de Santo António fui dar uma volta pela avenida e ver as marchas populares com o meu irmão.

Ele aborreceu-se em dois segundos e quis vir embora. Tinha trazido um skate e achou mais interessante ficar a equilibrar-se naquela tábua com rodas durante uma hora, mesmo que isso lhe custasse uns quantos arranhões. Eu entendi e decidi não o convencer a ficar e “ver mais um bocadinho”. Mas antes de irmos, reparei nas caras das pessoas que compunham o grupo que marchava — eram na sua maioria jovens. Jovens que pareciam tristes, ou inibidos. Sei que não posso generalizar, e que talvez aquele grupo que passava ali, naquele preciso momento, fosse o único que se estivesse a sentir assim. Depois reparei nas restantes pessoas que assistiam — ninguém acompanhava as canções ou batia palmas, pior que isso: não havia emoção e sorrisos alegres. Aquela marcha de cor e brilho era mais uma coisa que se atravessava aos olhos daquela gente. Aquela gente também era eu.

Pensei: Os portugueses andam tristes! Cansados!

Hoje é noite de São João e estou à espera de encontrar este menino que a esta hora já deveria ser homem. Que surja o D. Sebastião no meio do nevoeiro da sardinhada! Pelo menos esta noite! Bom São João!

Dos Tolos e dos Loucos

…para ouvir: Breathe – Pink Floyd

by Michael W.

Thomas Mann escrevia em A Montanha Mágica sobre a relatividade do tempo: “O vazio e a monotonia alargam por vezes o instante ou a hora e tornam-nos “aborrecidos”; porém, as grandes quantidades de tempo são por elas abreviadas e aceleradas, a ponto de se tornarem um quase nada”. A aceleração que a passagem do tempo adquire através da monotonia torna-se vertiginosa e, em retrospectiva, assustadora, um salto de olhos vendados para um abismo que se rasgou por baixo dos nossos pés. Continuar a ler

“Diz-me o que comes…”

Camilo & Forster

lustração: Inga F.

by Michael W.

Em O Vinho do Porto: Processo d’uma Bestialidade Ingleza *, Sinval explicava a Camillo que “há uma só distinção que extrema o homem de todos os outros animais (…) A mentira. O homem é o único animal que mente”.

Na pena de Camillo, o famoso Barão de Forrester, num infame panfleto sobre a produção do vinho do Porto, e que provocou um “abalo intestinal no mercado de Londres”, acusa os lavradores Continuar a ler

Homens dentro de garrafas

by Manuela F.

Lembro-me de num jantar, num qualquer restaurante aqui no vilarejo, ter visto uma sequência de serigrafias alusivas ao trabalho árduo no Douro numa altura em que pouco ou nada se falava desta região, durante décadas esquecida: Esboços das vinhas, cacos, garrafas que rolavam pelas encostas, garrafas estas que no seu interior ao invés de vinho, continham homens carcomidos, desgastados e embrutecidos, com rostos sulcados de rugas. Tudo isto vi numa altura em que o Douro ainda não era Património Mundial da Humanidade e nas bancas de jornais não existiam revistas sobre vinhos, dessas que hoje são publicadas aos magotes, em que rios de tinta são gastos a falar do brilhantismo deste e daquele produtor, deste e daquele enólogo, de castas, da acidez dos vinhos, dos taninos e de restaurantes onde se associam néctares à Nouvelle Cuisine. Exaltam-se os chefs como se de estrelas de Hollywood se tratassem.

Obra do acaso, poucos anos mais tarde, fui trabalhar para um local onde se produz vinho desde o séc. XVII. Uvas desta e de outras quintas do Douro, são ainda hoje ali vinificadas. Misturam-se saberes ancestrais com novas técnicas de produção. Daí vermos os velhos lagares de granito ao lado de cubas de inox. Foi aqui que tomei contacto com o vinho e fiz a minha ligação às serigrafias que um dia vi num qualquer restaurante.

 por Nuno Castelo

Homens Garrafa III  de Nuno Castelo

O Candeeiro

by Michael W.

Entraram, e apesar da grande mancha iluminada no centro da sala, não resistiram olhar primeiro para cima. Não havia candeeiro de tecto, e isto, para olhos pouco habituados à parca natureza da minha casa, sujeita-me ao escrutínio íntimo de cada um dos convidados. Tinha-me esquecido completamente do tecto… Continuar a ler